Setembro, mês da Bíblia

O Mês da Bíblia surgiu em 1971, na Arquidiocese de Belo Horizonte, Minas Gerais, e desde então tornou-se um tempo privilegiado para a reflexão da Palavra de Deus no seio da família, nos “círculos bíblicos” e nas comunidades eclesiais. Só em 1985, assumido pela CNBB, estendeu-se por todo o Brasil e outros países da América Latina, tendo como objetivos: (i) Contribuir para o desenvolvimento das diversas formas de presença da Bíblia na ação evangelizadora da Igreja no Brasil; (ii) Criar subsídios bíblicos nas diferentes formas de comunicação; e (iii) Facilitar o diálogo criativo e transformador entre a Palavra, a pessoa e as comunidades.



Em cada ano refletimos sobre um livro da Bíblia. Este ano somos convidados a refletir o livro do Deuteronômio com o lema: “Abre tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11).


Das cinco narrativas históricas que integram o Pentateuco, o Deuteronômio constitui a unidade literária mais diferenciada. Os estudiosos da Bíblia falam de uma nova tradição ou fonte documental, que se distingue das outras fontes do Pentateuco por motivos de estilo e de teologia e se prolonga até o fim do 2° Livro dos Reis, formando a “Fonte ou História Deuteronomista”.


“Deuteronômio”, que quer dizer “segunda Lei”, foi o nome dado a este livro nas traduções grega e latina, porque se apresenta como a reedição ou síntese dos textos anteriores, enquadrada por um estilo diferente.


O texto deste livro teve uma história complicada. A sua origem é geralmente colocada no Reino do Norte, antes da conquista da Samaria, em 722, quando da invasão dos assírios. Na bagagem dos levitas do Norte deve ter vindo uma primeira redação do Deuteronômio, que teria como esquema base uma celebração litúrgica da Aliança (Js 24). Curiosamente, um século mais tarde, foi encontrado no templo de Jerusalém o “Livro da Lei do Senhor” ou “Livro da Aliança” (2Rs 22,8.11; 23,2.21). O rei Josias começou imediatamente a pôr esta Lei em prática, fazendo uma reforma do culto (2Rs 23,3-20). A relação entre esta reforma e o Deuteronômio encontra-se na insistência da centralização do culto em Jerusalém e na destruição dos cultos idolátricos.


No Sul, deve ter sido feita uma primeira redação elaborada depois da reforma de Ezequias, ou seja, em meados do séc. VII a.C.. A última redação deve ter acontecido no Pentateuco: séc. V-IV a.C.. Tudo isto denota um contexto posterior e uma finalidade catequética. É no contexto destas diferentes etapas que o Deuteronômio foi se constituindo.


O livro está organizado em três grandes discursos atribuídos a Moisés. Com estilo direto, num tom profético, usando temas e frases repetitivas, o redator final sintetiza o programa ou projeto que torna possível fazer de Israel uma nova sociedade, segundo os ideais dos tempos puros da caminhada pelo deserto. Assim, temos:


I. Primeiro Discurso (1,6-4,43): de forma histórica, traz o passado, desde a planície desértica da Arabá até a entrada na Terra Prometida de Canaã.

II. Segundo Discurso (4,44-28,68): Moisés apresenta os fundamentos da Aliança e as determinações da Lei.


Código Deuteronômico: 11,29-26,15.


III. Terceiro Discurso (28,69-30,20): últimas instruções de Moisés.

IV. Apêndice (31,1-34,12): narra os últimos dias de Moisés, com cânticos e bênçãos, bem como a sua morte.


O Deuteronômio é, sem dúvida, um livro de grande riqueza doutrinal, sempre preocupado em inculcar a fidelidade de Israel a Deus, que é chamado Pai (1,31), e a estabelecer entre os membros do povo escolhido uma verdadeira fraternidade.


Defende a centralização do culto, dentro do princípio da aliança, que os profetas evidenciaram. Mesmo insistindo na observância das leis, não deixa de salientar a responsabilidade da consciência individual e o compromisso pessoal, que a fé no Deus único exige.


Apesar da visão profundamente religiosa e das preocupações teológicas mais voltadas para os problemas institucionais e nacionais, não deixa de reclamar o amor fraterno e a justiça social, apresentando leis verdadeiramente humanitárias.


Pela sua intenção de recapitular a Lei e repropor o conceito de aliança, e pela influência que teve na reflexão sobre a História de Israel, o livro do Deuteronômio ocupa um lugar central dentro da Bíblia. E é, por conseguinte, de primeira importância para qualquer tentativa de sistematização de uma teologia bíblica.


Por Pe. Antônio Rodrigues - Vigário da Paróquia São João Batista - Cedro de São João/SE

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